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Março Mulher: mês de luta, resistência e enfrentamento à violência contra meninas e mulheres
06/03/2026
Março é reconhecido internacionalmente como um
período de mobilização histórica das mulheres. A origem do 8 de março remete às
lutas operárias do final do século XIX e início do século XX, quando mulheres
trabalhadoras passaram a se organizar contra jornadas exaustivas, desigualdade
salarial, ausência de direitos políticos e condições desumanas de trabalho. Ao
longo das décadas, essas mobilizações se consolidaram como símbolo de
resistência e conquista de direitos.
O chamado “Março Mulher” nasce desse processo
coletivo. Não se trata de uma data comemorativa nem de um momento protocolar no
calendário. É um marco político de memória, denúncia e reivindicação. Reduzir
março a homenagens superficiais significa ignorar que os direitos das mulheres
foram conquistados a partir de enfrentamentos históricos e que muitos deles
seguem ameaçados ou incompletos.
Por que março é um mês de luta?
Março se consolidou como período de mobilização
porque simboliza a força da organização coletiva das mulheres ao longo do tempo.
Mais do que uma referência cronológica, o mês carrega a memória de
enfrentamentos que transformaram legislações, ampliaram direitos e redefiniram
o lugar das mulheres na sociedade. Ao mesmo tempo, evidencia o quanto ainda há
por conquistar.
É um chamado coletivo para visibilizar a violência
que atinge milhões de mulheres diariamente, debater e fortalecer políticas
públicas de prevenção e proteção, promover educação para igualdade de gênero e
romper com padrões culturais que naturalizam agressões físicas, psicológicas,
morais, patrimoniais e simbólicas.
No Brasil, os dados revelam a dimensão do desafio.
Em 2025, o país registrou cerca de 1.470 feminicídios: o maior número desde que
o crime passou a ser tipificado na legislação, em 2015. A média é de quase
quatro mulheres assassinadas por dia em razão do gênero. Além disso, milhares
de casos de violência doméstica e sexual são registrados anualmente, embora
ainda exista significativa subnotificação.
Mesmo com avanços importantes na legislação,
persistem desafios estruturais: dificuldade de acesso à proteção imediata,
fragilidade na rede de atendimento em muitos municípios, morosidade judicial e
barreiras culturais que silenciam vítimas. Em áreas rurais e periféricas, o
acesso à informação e aos mecanismos de denúncia ainda é limitado.
A violência de gênero também não pode ser dissociada de outras desigualdades. Mulheres negras seguem sendo as principais vítimas de feminicídio no país. Mulheres indígenas enfrentam violências associadas à exclusão histórica e à disputa territorial. Mulheres LGBTQIA+, especialmente mulheres trans, vivenciam altos índices de violência motivada por preconceito. A desigualdade salarial, a sobrecarga do trabalho doméstico e a baixa representação nos espaços de decisão reforçam esse cenário estrutural.
Os dados mais recentes reforçam a dimensão das desigualdades e violências enfrentadas pelas mulheres no Brasil. Em 2025, o país registrou 6.904 vítimas de feminicídio consumado ou tentado, sendo 2.149 assassinatos e 4.755 tentativas, o que representa quase seis mulheres mortas por dia em razão da violência de gênero. Ao longo da última década, desde que o feminicídio passou a ser tipificado como crime no país, quase 12 mil mulheres foram assassinadas por razões de gênero, revelando a persistência de uma violência estrutural contra as mulheres. A violência doméstica também apresenta números alarmantes: pesquisas nacionais indicam que cerca de 37% das mulheres brasileiras relataram ter sofrido algum tipo de violência no último ano, embora apenas uma parcela das vítimas consiga formalizar denúncia. No campo econômico, a desigualdade também permanece evidente: as mulheres recebem, em média, entre 77% e 78% da renda masculina, refletindo um cenário global em que o Brasil ocupa posição crítica em disparidade salarial. As desigualdades se aprofundam quando se observa o recorte racial. A taxa de desocupação entre mulheres negras chega a 9,3%, enquanto entre homens brancos é de 4,4% e entre mulheres brancas 5,8%, evidenciando como gênero e raça se combinam para ampliar barreiras de acesso ao trabalho, renda e autonomia econômica.
Março, portanto, é tempo estratégico para ampliar o
debate público, fortalecer redes comunitárias e reafirmar que a violência
contra a mulher não é um problema individual, mas social e político.
Enfrentá-la exige articulação entre Estado, sociedade civil e comunidades.
O olhar do MOC: feminismo, território e justiça
social
No Movimento de Organização Comunitária (MOC), a
luta das mulheres é compreendida como eixo central para a transformação dos
territórios. A instituição parte do princípio de que não há convivência
sustentável com o Semiárido sem autonomia econômica, segurança e participação
política plena das mulheres.
Nos territórios onde atua, as mulheres desempenham
papel decisivo na agricultura familiar, na economia popular e solidária, na
preservação de sementes crioulas, na gestão da água e na organização
comunitária. São protagonistas na construção de alternativas sustentáveis e na
defesa de direitos sociais.
Ao mesmo tempo, enfrentam desigualdades históricas
atravessadas por gênero, raça e classe social. Por isso, o trabalho do MOC
articula formação política, fortalecimento de redes de apoio, incentivo à
autonomia econômica e incidência em políticas públicas, entendendo que justiça
de gênero e justiça racial são dimensões inseparáveis do desenvolvimento
territorial.
Reafirmar o sentido do Março Mulher é assumir
compromisso contínuo com a defesa da vida e da dignidade das mulheres. Direitos
conquistados precisam ser defendidos diariamente. A violência de gênero exige
resposta institucional consistente e cultura de paz construída de forma
permanente. A construção de territórios mais justos passa, necessariamente,
pela igualdade real entre mulheres e homens. A luta das mulheres dialoga
com democracia, justiça social, desenvolvimento sustentável e direitos humanos.
Cada política fortalecida, cada rede de apoio consolidada e cada ação
comunitária realizada representam passos concretos na construção de uma
sociedade que respeite a vida em toda a sua diversidade.
Compromisso coletivo
Março não é apenas um mês no calendário. É memória,
é mobilização e é ação coletiva. É o lembrete de que transformação social não
acontece por acaso ela nasce da organização, da consciência crítica e da
coragem de seguir lutando. Ao longo deste mês, o MOC realizará uma série
de ações voltadas ao empoderamento e à mobilização das mulheres. A programação
inclui feira da agricultura familiar e da economia popular e solidária, rodas
de conversa, oficinas temáticas, plenárias, mostra fotográfica e atividades
culturais. Os espaços serão dedicados à formação política, ao debate sobre
direitos e à valorização das experiências das mulheres do campo e da cidade.
O
Março Mulher promovido pelo MOC se consolida como espaço de escuta, troca e
construção coletiva de caminhos para um território mais justo e igualitário. Em
um cenário ainda marcado por índices preocupantes de violência e desigualdade,
fortalecer a organização das mulheres e ampliar redes de solidariedade torna-se
não apenas necessário, mas urgente.
Mais
do que um período simbólico, março reafirma que a luta das mulheres é
permanente e que a transformação social exige informação qualificada,
mobilização social e ação coletiva articulada. É na força da organização
comunitária que se constroem respostas concretas e duradouras para enfrentar as
desigualdades e garantir direitos.