El Niño 2026 acende alerta no Semiárido e reforça importância das estratégias de convivência com o clima

17/07/2026
El Niño 2026 acende alerta no Semiárido e reforça importância das estratégias de convivência com o clima

As previsões meteorológicas que apontam para a possibilidade de formação de um novo episódio do fenômeno El Niño no segundo semestre de 2026 acendem um sinal de alerta para o Semiárido brasileiro. Associado à redução das chuvas e ao aumento das temperaturas, o fenômeno pode agravar a escassez hídrica, comprometer a produção de alimentos e aumentar a vulnerabilidade das famílias agricultoras que dependem diretamente dos recursos naturais para produzir e viver no campo. 

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, provocando alterações na circulação atmosférica em diversas partes do planeta. No Nordeste brasileiro, os efeitos costumam ser percebidos principalmente pela redução das precipitações e pela intensificação das ondas de calor, especialmente durante o período chuvoso da região, que se concentra entre o final do ano e os primeiros meses do ano seguinte. 

Para a engenheira agrônoma e técnica do Movimento de Organização Comunitária (MOC), Nuria Mariana, os impactos do fenômeno sobre a agricultura familiar podem ser profundos.

“O El Niño está associado à diminuição das chuvas e, consequentemente, ao aumento das temperaturas. Com isso, os riscos de escassez hídrica aumentam e o agricultor sofre diretamente com o agravamento da seca”, explica.

Segundo ela, a agricultura familiar é uma das atividades mais sensíveis aos efeitos do fenômeno, já que depende fortemente das chuvas e dos recursos naturais locais.

“A primeira consequência é a redução da disponibilidade de água para o consumo humano, para os animais e, principalmente, para a produção agrícola. Muitas lavouras deixam de se desenvolver. Este ano mesmo, em várias localidades, quem plantou milho e feijão enfrentou perdas porque a produção não vingou”, afirma.

Além das perdas nas lavouras, a redução das pastagens e da produção de forragem afeta diretamente a alimentação animal, elevando os custos das famílias agricultoras.

“Muitos agricultores já vêm se preparando e produzem silagem para garantir alimentação ao rebanho durante períodos críticos. Ainda assim, quando é necessário comprar ração e insumos, os custos aumentam significativamente”, destaca a agrônoma.

Ela ressalta ainda que os efeitos do El Niño tendem a atingir com maior intensidade as famílias que possuem menor acesso às políticas públicas e às tecnologias adaptadas ao Semiárido.

“O aumento das temperaturas também favorece processos de degradação do solo, da vegetação e amplia o risco de queimadas e de desertificação nas áreas mais sensíveis”, acrescenta.


Mudanças climáticas ampliam os desafios

A geógrafa do MOC e doutoranda em Ciências Ambientais, Maiane Figueiredo, lembra que os impactos do El Niño se somam a um cenário já marcado pelas mudanças climáticas globais.

“As alterações climáticas já fazem parte do nosso dia a dia. O aumento das temperaturas, a irregularidade das chuvas e os períodos de seca mais prolongados são sinais cada vez mais perceptíveis”, explica.

Ela destaca que cientistas acompanham esses fenômenos por meio de imagens de satélite, que monitoram a dinâmica da atmosfera e permitem identificar a formação do El Niño e outras anomalias climáticas.

“Quando esse fenômeno se soma ao aquecimento global, aumenta a ocorrência de eventos extremos, como ondas de calor, secas severas, chuvas intensas, enchentes e alagamentos.”

No Semiárido brasileiro, onde a convivência com longos períodos de estiagem já faz parte da realidade, os efeitos tendem a ser ainda mais severos.

“Essas alterações comprometem a produção de alimentos, reduzem a disponibilidade de água e afetam diretamente a qualidade de vida das famílias”, afirma.

Estratégias de convivência fortalecem a resiliência das comunidades

Diante desse cenário, especialistas defendem que fortalecer as estratégias de convivência com o Semiárido é o caminho para reduzir os impactos dos eventos climáticos extremos.

Entre as principais iniciativas estão a captação e o armazenamento da água da chuva, o uso de sementes crioulas adaptadas às condições locais, a diversificação da produção agrícola, as práticas agroecológicas e ações de recuperação da Caatinga, como o recaatingamento.

No território de atuação do MOC, muitas dessas estratégias já fazem parte da rotina das comunidades rurais.

“Nós trabalhamos constantemente com a gestão da água, o fortalecimento dos bancos de sementes crioulas, a diversificação produtiva e práticas que aumentam a capacidade de adaptação das famílias agricultoras”, explica Nuria Mariana.

Para Maiane Figueiredo, essas ações vão além das soluções técnicas.

“As tecnologias sociais, o recaatingamento, as práticas agroecológicas e a educação contextualizada do campo têm demonstrado que é possível ampliar a capacidade de adaptação das comunidades às mudanças climáticas. Mais do que isso, fortalecem a autonomia das famílias, valorizam os saberes locais e contribuem para a permanência das populações em seus territórios com dignidade.”

Um desafio coletivo

Embora o El Niño seja um fenômeno natural, especialistas alertam que seus efeitos podem ser potencializados pelo aquecimento global e pela ausência de políticas públicas voltadas para a adaptação climática. No Semiárido, isso significa investir cada vez mais em tecnologias sociais, segurança hídrica e fortalecimento da agricultura familiar. 

Para o MOC, a convivência com o Semiárido segue sendo não apenas uma estratégia de resistência, mas um projeto de futuro capaz de garantir a permanência das famílias no campo, mesmo diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas e pelos eventos extremos que tendem a se tornar cada vez mais frequentes.


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