Brasil fecha mais de 110 mil escolas do campo e ameaça o futuro das comunidades rurais

16/03/2026
Brasil fecha mais de 110 mil escolas do campo e ameaça o futuro das comunidades rurais

O fechamento de escolas do campo tem se consolidado como uma realidade preocupante no Brasil nas últimas décadas. Entre 2000 e 2024, o país perdeu 110.758 unidades escolares localizadas em áreas rurais, segundo levantamento do Fórum Nacional de Educação do Campo (Fonec), com base em dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Mais do que um dado estatístico, esse cenário evidencia um processo contínuo de enfraquecimento das comunidades rurais e de esvaziamento de territórios historicamente vinculados à agricultura familiar, onde a escola ocupa um papel central na organização da vida social.

A redução dessas unidades de ensino não pode ser compreendida apenas como uma reorganização administrativa da rede pública. No contexto do campo, a escola representa muito mais do que um espaço de aprendizagem formal: ela é ponto de encontro, espaço de construção de identidade e elemento estruturante das dinâmicas comunitárias. Quando uma escola fecha, não se perde apenas um equipamento público, mas um espaço que articula educação, cultura e pertencimento, impactando diretamente a permanência das populações em seus territórios.

Grande parte desses fechamentos está associada à política de nucleação escolar, adotada por gestores como estratégia de otimização de recursos. Na prática, essa lógica concentra estudantes em unidades maiores, geralmente situadas em áreas urbanas ou em localidades mais distantes, desconsiderando as especificidades da vida no campo. O resultado é a ampliação das distâncias entre escola e comunidade, a ruptura de vínculos territoriais e o enfraquecimento do papel da educação como instrumento de desenvolvimento local.

É nesse cenário que o Movimento de Organização Comunitária (MOC) tem atuado no Semiárido baiano, desenvolvendo estratégias para conter o fechamento das escolas do campo e fortalecer práticas educativas conectadas à realidade das comunidades. A atuação da organização se baseia na defesa da Educação do Campo contextualizada, uma abordagem que reconhece o território como espaço educativo e valoriza os saberes locais, a cultura e os modos de vida das famílias agricultoras.

“Para evitar o fechamento das escolas do campo, é fundamental trabalhar com uma metodologia que valorize a agricultura familiar, o território e a cultura local. O MOC desenvolve esse trabalho em parceria com os municípios e com a Universidade Estadual de Feira de Santana, por meio da metodologia CAT — conhecer, analisar e transformar — além do projeto Baú de Leitura e de ações de incentivo à cultura. Fazemos isso através da formação continuada de educadores, gestores escolares e da sociedade civil, justamente para impedir o fechamento das unidades e fortalecer práticas que valorizem o lugar, as pessoas e o direito de permanecer no campo, especialmente a juventude. Se o jovem quiser ficar, ele precisa ter garantido o direito de permanecer”, afirma Vera Carneiro, coordenadora do Programa de Educação do Campo Contextualizada do Movimento de Organização Comunitária.

A avaliação da coordenação do programa reforça que o fechamento das escolas do campo não se limita à dimensão educacional, mas interfere diretamente nas perspectivas de continuidade das comunidades rurais. Quando a escola deixa de dialogar com o território ou simplesmente deixa de existir o que se estabelece é uma lógica que empurra as novas gerações para fora do campo, fragilizando a sucessão rural e comprometendo a sustentabilidade social e econômica dessas localidades.

Essa realidade também é sentida no cotidiano das escolas e por quem vive diretamente esse processo. Professor da educação do campo no munícipio de Cansanção há mais de 20 anos, Luciano Gomes destaca que o fechamento dessas unidades representa uma perda estrutural para as comunidades. “O fechamento das escolas gera um prejuízo bastante complexo dentro das comunidades, que se fortalecem diretamente a partir desses espaços. Ao longo dos anos, com iniciativas como o projeto CAT e o Baú de Leitura, a gente vem buscando caminhos para evitar que isso aconteça. Quando uma escola fecha, a perda é total para a comunidade e para o município”, afirma.

A importância das escolas do campo também está diretamente ligada à preservação da cultura e das identidades locais. Como ressalta Aldania Oliveira Diana, coordenadora da Educação do Campo do municipio de Araci, esses espaços cumprem um papel fundamental na manutenção dos saberes comunitários. “As comunidades rurais, onde essas escolas estão inseridas, são uma memória viva, uma memória de cultura e de genuinidade familiar que precisa ser preservada. É por meio dessas comunidades e da educação do campo que essa cultura continua sendo transmitida, não apenas localmente, mas contribuindo para a identidade do município, do estado e do país”, afirma.

Nesse contexto, a defesa da educação contextualizada se consolida como uma estratégia fundamental. A metodologia CAT, adotada pelo MOC, propõe integrar o processo educativo à vivência das comunidades, articulando conhecimento escolar e realidade local. Ao fortalecer o vínculo entre escola, território e cultura, a proposta contribui para a construção de identidade, pertencimento e projeto de vida no campo, contrapondo-se diretamente à lógica que historicamente tem levado ao fechamento dessas unidades.

O cenário nacional, no entanto, segue exigindo atenção. Somadas às escolas urbanas, o Brasil fechou 163.854 unidades públicas em 24 anos. Apenas em 2024, foram 3.159 escolas extintas em todo o país, sendo 1.585 em áreas rurais e 1.574 nas cidades. Os dados do Censo Escolar 2024 indicam ainda que 98,9% das escolas localizadas no campo pertencem à rede pública, enquanto apenas 1,1% são privadas, evidenciando a ausência de alternativas para as populações rurais e reforçando o papel do Estado na garantia do direito à educação nesses territórios.

Para o MOC, defender a escola do campo é, portanto, defender a permanência das comunidades e a construção de um modelo de desenvolvimento que valorize a soberania alimentar, os saberes tradicionais e a autonomia dos povos do campo. Em um país marcado pelo fechamento de milhares de escolas rurais, iniciativas como as desenvolvidas no Semiárido baiano demonstram que, com políticas públicas adequadas, formação continuada e participação social, é possível manter viva a escola como espaço de transformação social, cultural e educativa.