Março Mulher reúne cerca de 8 mil pessoas na UEFS e fortalece protagonismo feminino

30/03/2026
Março Mulher reúne cerca de 8 mil pessoas na UEFS e fortalece protagonismo feminino

Evento do MOC integrou feira da economia criativa, popular e solidária, formação política e debates sobre direitos, empreendedorismo e sustentabilidade


Entre os dias 24 e 26 de março, o Movimento de Organização Comunitária (MOC) realizou, na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), a segunda edição do Março Mulher – Raízes de Empoderamento e Conexão Solidária. O evento reuniu agricultoras familiares, empreendedoras, lideranças comunitárias, organizações parceiras e representantes do poder público de diversos municípios e do estado da Bahia em uma programação que articulou formação política, geração de renda e mobilização social.

 

Ao longo dos três dias, cerca de 200 empreendimentos participaram da Feira da Agricultura Familiar e da Economia Criativa, Popular e Solidária, que recebeu um público estimado em aproximadamente 8 mil pessoas, consolidando-se como espaço de visibilidade para a produção agroecológica e para iniciativas da economia popular e solidária nos territórios do Semiárido Baiano.

 

Mais do que um evento, o Março Mulher reafirma seu papel como plataforma de incidência pública e construção coletiva. Ao integrar formação política, cultura e práticas econômicas solidárias, a iniciativa conecta territórios e sujeitos em torno de alternativas baseadas na justiça social, na equidade de gênero e na valorização dos saberes locais. A autonomia feminina aparece, nesse contexto, como eixo estruturante do desenvolvimento territorial, especialmente pela geração de renda e pelo fortalecimento do protagonismo das mulheres.

 

A abertura oficial marcou um momento de forte simbolismo político e institucional, reunindo organizações da sociedade civil, movimentos sociais e representantes do poder público. O ato reforçou o compromisso coletivo com a promoção dos direitos das mulheres e com o fortalecimento das organizações comunitárias, posicionando o Março Mulher como um espaço permanente de articulação e mobilização.

 

O presidente do MOC, Edisvânio Nascimento, destacou a mobilização em torno da iniciativa e o envolvimento dos territórios na construção do evento.

 

“A meu sentir o 2º Março Mulher deixa marcas bastante emblemáticas e significativas, tendo em vista o grande comprometimento de toda equipe do MOC nos processos de mobilização das produtoras e produtores, onde podemos contar com mais de 200 empreendimentos expondo os seus mais diversos produtos. Destaco também a relevância dos parceiros e apoiadores do evento por terem mais uma vez acreditado na proposta do MOC e, fundamentalmente, cada produtora e produtor que participaram com brilhantismo durante os três dias de evento.”

 

Edisvânio também enfatizou a diversidade da programação e o alcance dos debates realizados ao longo do evento. “Outro ponto muito significativo foi a programação ampla, com seminários, rodas de conversa e oficinas, em que foram abordados temas fundamentais, como direitos das mulheres, o enfrentamento à violência, além de falarmos sobre justiça social, soberania alimentar, organizações comunitárias fortalecidas, resiliência climática, acesso às políticas públicas, dentre outros.”

 

 

Seminários 


A programação formativa se consolidou como um dos principais eixos políticos do Março Mulher, estruturando debates fundamentais para a compreensão das desigualdades nos territórios e para a construção de estratégias de enfrentamento a partir do protagonismo das mulheres. Ao longo dos três dias, quatro seminários temáticos reuniram agricultoras/es, empreendedoras, pesquisadoras/es, organizações sociais e representantes do poder público em torno de agendas que articulam desenvolvimento, direitos e justiça social no semiárido.

 

Abrindo a programação, o seminário Políticas Públicas, Agroecologia e Segurança Alimentar reuniu agricultoras e agricultores familiares, além de representantes de organizações e instituições públicas, para discutir estratégias de fortalecimento da agroecologia e políticas voltadas à garantia do direito humano à alimentação adequada. Mais do que discutir produção de alimentos, o debate tensionou o modelo dominante do agronegócio e reafirmou a agroecologia como projeto político de sociedade, baseado na sustentabilidade, na valorização dos saberes tradicionais e na autonomia das comunidades.

 

Nesse contexto, as mulheres agricultoras foram reconhecidas como sujeitas estratégicas na garantia da soberania alimentar, evidenciando que fortalecer políticas públicas para a agricultura familiar é também enfrentar desigualdades históricas de gênero, raça e território. O encontro contou com painéis temáticos, com a participação de Tiago Pereira (Coordenação do Programa Bahia Sem Fome), e destacou experiências desenvolvidas pelo MOC e por famílias agricultoras nos territórios de atuação, reforçando a agroecologia como alternativa sustentável de produção e caminho para a soberania alimentar.

 

No segundo dia, o eixo político do evento se aprofundou ao trazer para o centro do debate as desigualdades estruturais que atravessam a vida das mulheres. O seminário “Empreender na Periferia: Desafios e Oportunidades para Trabalhadoras da Economia Popular” evidenciou que o empreendedorismo, para mulheres dos territórios urbanos e periféricos, não é uma escolha idealizada, mas uma resposta concreta à ausência de políticas públicas e oportunidades formais de trabalho. A discussão denunciou as barreiras de acesso ao crédito, à formação e aos mercados, ao mesmo tempo em que reafirmou a economia popular e solidária como estratégia de resistência e construção de autonomia econômica.

 

A atividade contou com a presença do presidente do MOC, Edisvânio Nascimento, de Fábio Santana, do Programa Vida Melhor Urbano/Sedes, além de representantes de organizações parceiras e lideranças sociais. Durante a palestra central, Danilo Uzeda (Professor da UEFS),  que abordou os desafios enfrentados por mulheres na economia popular e provocou reflexões sobre os limites e possibilidades do empreendedorismo nesses contextos. É preciso compreender o empreendedorismo nas periferias não como uma escolha idealizada, mas como uma resposta concreta às desigualdades estruturais e à ausência de políticas públicas.

Ao final do encontro, um momento solene de certificação reconheceu a participação e o compromisso das e dos envolvidos.

 

Articulado a esse debate, o XV Seminário Março Mulher assumiu um posicionamento firme ao colocar o enfrentamento ao feminicídio como pauta central. Mais do que denunciar a violência, o espaço provocou uma reflexão sobre suas raízes estruturais, evidenciando o feminicídio como expressão extrema de um sistema que ainda naturaliza a desigualdade de gênero. O debate reforçou a urgência de políticas públicas integradas, que articulem prevenção, proteção e responsabilização, além de fortalecer redes de apoio nos territórios. Nesse sentido, o Março Mulher se posiciona não apenas como espaço de denúncia, mas como plataforma de incidência política na defesa da vida das mulheres. Durante a conferência principal, a professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salete Maria da Silva, destacou a necessidade de respostas estruturais para o enfrentamento da violência de gênero. O feminicídio não é um fato isolado. Ele é a expressão extrema de uma sociedade que ainda naturaliza a desigualdade de gênero.

 

A coordenadora do Programa de Gênero, Geração e Igualdade Racial (PGGIR) do MOC, Selma Glória, também reforçou a importância da articulação coletiva e do fortalecimento das redes de proteção.

 

“Falar de enfrentamento à violência contra as mulheres é fortalecer redes e garantir proteção, mas também é disputar narrativas”, afirmou.

 

Encerrando a programação, o seminário Acesso à Água e Resiliência Climática reuniu agricultoras/es, organizações e representantes do poder público dos territórios e do Estado da Bahia para discutir temas como segurança hídrica, mudanças climáticas e racismo ambiental. O debate evidenciou a relação entre acesso à água e desigualdades sociais, reforçando a necessidade de políticas públicas que garantam esse direito.

 

“Discutir água é discutir poder: quem acessa, quem decide e quem ainda é deixado à margem”, foi destacado durante o debate.

 

Além das discussões, o seminário foi marcado por vivências, partilhas de experiências e diálogos que evidenciaram os saberes das famílias e suas estratégias de convivência com o semiárido.

 

A feira foi um dos principais espaços de circulação econômica e troca de experiências durante o evento, reunindo iniciativas da agricultura familiar e da economia popular e solidária.

 

A dimensão concreta da agricultura familiar e da economia popular e solidária também pôde ser percebida nos relatos das próprias expositoras. Entre elas, Patrícia, agricultora e participante da feira, destacou a importância do evento para a geração de renda e a preservação cultural:

“Muitos produtos que são comercializados aqui são frutos da própria colheita. Lá em casa mesmo, a gente planta no quintal e esse é o momento de vender. E é muito importante pra manter a nossa cultura, porque, do jeito que vai, a gente corre o risco de perder. Mas a gente tem confiança de manter. Esse é um evento necessário, muito importante para valorizar o que a gente produz.”

 

Na banca de Patrícia, produtos típicos como pé de moleque, amendoim, castanha e feijão de corda traduzem, na prática, o valor da produção local e da agricultura familiar, reforçando a feira como espaço de comercialização, mas também de identidade e resistência cultural.

 

Ao refletir sobre a dimensão coletiva do encontro, a Coordenadora Pedagógica do MOC, Gisleide Carneiro, destacou o ambiente de construção compartilhada promovido ao longo dos três dias.

 

“A Feira da Agricultura Familiar e da Economia Criativa, Popular e Solidária foi muito mais do que um evento: vivenciamos dias de intensa partilha, em que a agricultura familiar, a economia popular e solidária e a cultura se encontraram em um mesmo espaço de diálogo, afeto e construção coletiva. As rodas de conversa, encontros, plenárias, oficinas, formações, seminários e manifestações culturais criaram um ambiente vivo de troca de saberes e sabores. Em cada atividade, floresceram aprendizados, laços de confiança, novas conexões e a certeza de que é possível fortalecer territórios a partir da escuta atenta, do cuidado mútuo e da valorização das pessoas e de suas histórias. Tivemos ainda a tenda do cuidar de quem cuida, um espaço de acolhimento e pausa, onde corpos e sentimentos puderam respirar, se reconhecer e se fortalecer. Ali, o cuidado apareceu como gesto político e amoroso, lembrando que ninguém caminha sozinho. Saímos da feira com o coração aquecido, a esperança renovada e o compromisso de seguir semeando, em cada território, as práticas de solidariedade, justiça e cuidado que ali floresceram.”

 

 

Moeda social fortalece economia local dentro da feira

Um dos destaques da programação foi a utilização da moeda social “Moquitos”, adotada como estratégia para estimular a circulação de recursos dentro da própria feira e fortalecer a economia local. Durante o evento, as/os participantes puderam adquirir o lanche da tarde utilizando a moeda, que circulou entre os empreendimentos e serviços presentes no espaço.

 

A iniciativa funcionou como um mecanismo prático de valorização da economia solidária, garantindo que os recursos movimentados permanecessem no território, beneficiando diretamente as expositoras e os empreendimentos envolvidos. Ao final da feira, a moeda foi convertida em real, assegurando retorno financeiro às participantes e fortalecendo a dinâmica econômica local.

 

A experiência também evidenciou, na prática, outras possibilidades de organização econômica, baseadas na cooperação, na circulação solidária de renda e na valorização dos circuitos curtos de comercialização, princípios centrais da economia popular e solidária.

 

Ao comentar a iniciativa, a coordenadora pedagógica do MOC, Gisleide Carneiro, destacou o impacto da ação dentro do evento:

 

“Também oportunizamos que as/os participantes adquirissem seu lanche da tarde por meio da moeda social Moquitos, potencializando, na própria feira, a circulação da moeda local. Ao final, essa moeda é convertida em real, fortalecendo a economia do território e reafirmando, na prática, que outras formas de viver, produzir e consumir são possíveis.”

 

A programação cultural atravessou todo o evento, valorizando a identidade dos territórios e reafirmando a arte como ferramenta de resistência. A presença da Biblioteca de Extensão (BIBEX), da Fundação Pedro Calmon, ampliou o acesso à leitura e criou um ambiente de formação e entretenimento dentro da feira.

O evento também foi palco de lançamentos importantes, como a 2ª edição da Premiação Caatinga na Mídia e o canal oficial do projeto CAT – Conhecer, Analisar e Transformar a Realidade do Campo, fortalecendo as estratégias de comunicação e educação contextualizada no Semiárido.

 

O Presidente do MOC, Edisvânio, ressaltou a valorização da cultura e as inovações desta edição.

 

“Além disso, o MOC se preocupou com a valorização dos momentos culturais, trazendo atrações ligadas à nossa identidade regional. E este ano contamos com uma inovação importante: a presença da Biblioteca de Extensão – BIBEX, da Fundação Pedro Calmon, que fez grande diferença ao proporcionar um espaço de leitura e entretenimento dentro da feira. Por fim, vejo que o Março Mulher já se consolida como um grande marco do MOC, tornando-se uma tradição e um horizonte de possibilidades que assegura às mulheres, protagonistas desse processo, a ocupação desses espaços, fortalecendo a economia criativa, popular, solidária e a agroecologia.”

 

Para, a coordenadora do Programa de Fortalecimento da Economia Popular e Solidária (PFFES) do MOC, Reinilda Santos, a feira representa um marco de cooperação e esperança:

 

“A realização da Feira da agricultura familiar e da economia criativa, popular e solidária é um marco de união, cooperação e esperança. Nosso sincero agradecimento a todos os expositores, parceiros, apoiadores, técnicos/as, agentes de desenvolvimento social e comunitário e visitantes que tornaram possível este encontro. Cada produto, cada troca e cada diálogo reforçaram o valor da solidariedade e da construção coletiva de uma economia mais justa e inclusiva.A todos/as que acreditaram e participaram, deixamos nossa gratidão. Que os frutos desta feira inspirem novas práticas, fortaleçam os laços comunitários e ampliem as oportunidades de desenvolvimento sustentável.

 

Seguimos juntos, com o compromisso de transformar realidades e de mostrar que a economia criativa, popular e solidária é um caminho viável e necessário para um futuro melhor.”

 

Ao final, o Março Mulher se consolida como muito mais que uma agenda anual: é um movimento contínuo de resistência, articulação e transformação. Um espaço onde o debate se traduz em prática e onde as mulheres demonstram, com força e consistência, que não há desenvolvimento territorial possível sem justiça social, equidade de gênero e valorização dos saberes locais.

A caminhada continua, e ela é, essencialmente, coletiva